O filósofo, escritor e dramaturgo Jean-Paul Sartre (1905-1980), fez, entre muitas, duas colocações que chamam a atenção de todos nós quando se trata de “discutir a relação”, situação mais conhecida como DR: “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós fazemos do que fizeram de nós”; e “o inferno é outro”.
As colocações desse pensador representam bem a forma de interagirmos com outras pessoas, seja nos relacionamentos pessoais, profissionais ou interpessoais.

A primeira fala de Sartre refere-se a aceitar passivamente as experiências vividas na infância ou adolescência e colocar-se como “vítima do mundo”, ou, ao contrário, dar a volta por cima, isto é, re-significar e reconstruir essas experiências, seguindo em frente de cabeça erguida.

Na segunda frase, “o inferno é outro”, a pessoa geralmente não assume que sua forma de comportar-se e de relacionar-se com outras pessoas pode desencadear seus sofrimentos físicos e emocionais, ou seja, passa a viver processos relacionais como se ele não fosse o construtor do próprio “inferno particular”.

Neste artigo, desejamos despertar o seu interesse sobre o tema “vício de amar”, mais conhecido por codependência afetiva, uma forma disfarçada de a pessoa não assumir sua incapacidade de amar e, com esse comportamento, acabar por sufocar os que fazem parte de seus processos relacionais.

Essa codependência é um padrão de comportamento relacional aprendido e internalizado na infância e adolescência, que se manifesta na fase adulta por meio de um vício, ou seja, cuidar do dependente.

Em geral, a pessoa com esse transtorno o faz de forma inconsciente, sem perceber que está tentando compensar situações conflituosas da infância ou adolescência, não resolvidas, como: falta de amor, acolhimento, aceitação, proteção e amparo por parte de seus cuidadores, pais, avós, tios, instituições, ou seja, todos aqueles que cuidavam ou deveriam ter cuidado de seu desenvolvimento físico e emocional no início de vida.

 

Salvadores da pátria. Só que não...

 

A pessoa codependente constrói um falso papel de “salvador da pátria” nos seus diversos processos interacionais de cuidar, sejam eles nos relacionamentos interpessoais, com pessoas dependentes do álcool e outras drogas, ou com pessoas que desenvolvem vícios relacionados ao trabalho, à compulsão, ao sexo, aos jogos de azar, à comida, dentre outros.

Este papel de “salvador da pátria”, na maioria das vezes é uma tentativa de cuidar de maneira sufocante e controladora do outro e, dessa forma, evitar que as fragilidades, vulnerabilidades físicas e emocionais da pessoa cuidadora, vividas no passado, sejam reeditadas e/ou reencenadas no presente nos diversos processos relacionais.

O “vício de cuidar”, na maioria das vezes, torna-se compulsivo, abusivo e transforma a pessoa cuidadora em um escravo na relação ao cuidar do outro. Em outras palavras, toda pessoa que desenvolve esse modo de interagir é considerado um codependente.

Ela desenvolve um processo de simbiose entre a pessoa que ama e cuida e entre a pessoa amada e cuidada. O codependente, com a intenção de demonstrar o seu grande amor pela pessoa que ama e cuida, usa de ciúmes exagerado, sentimentos de posse, chantagens emocionais e, por vezes, reclama que todo o seu “amor e dedicação” não estão sendo reconhecidos.

Uma pessoa viciada em amar afetivamente não consegue fazer distinção entre os seus sentimentos de desamparo, abandono, falta de amor e acolhimento, vividos na infância e adolescência, e acaba projetando suas expectativas e idealizações na relação com a pessoa amada, responsabilizando-a pela sua angústia, ansiedade e carência afetiva diante dos insucessos, fracassos e rejeições amorosas.

Essa forma de amar e cuidar excessiva transforma a pessoa com quem o codependente está se relacionando em um ser invisível. Esse modelo de amar e cuidar indiscriminado anula, desqualifica e despersonaliza a pessoa amada e cuidada.

Por exemplo: um adulto que não se sentiu amado e acolhido na infância e adolescência, no momento de se relacionar afetivamente com alguém, tenta criar e desenvolver um “vínculo compensatório” na esperança de suprir suas carências emocionais.

É bem provável que, na ansiedade e desespero de sentir-se amado, consiga ser induzido por uma “cegueira emocional ou paixão”, ou seja, enxergar “um príncipe encantado” no lugar do “um sapo intragável”.

O codependente afetivo não se dá conta de que, para se livrar do “inferno particular”, produzido por ele mesmo, e do papel de “vitima dominadora” que construiu, precisará passar novamente pelas “armadilhas infernais” que compõem os processos amorosos vividos por todos os seres humanos.

Todos nós gostaríamos de viver e de enxergar o que desejamos e idealizamos, porém só podemos vivenciar e visualizar o que nossas experiências físicas e emocionais de interação com o mundo real nos permitem. Não existe outra saída.

Estudos e pesquisas desenvolvidos pela neurociência têm demonstrado que, para nosso cérebro registrar, aprender e viver as várias formas de relacionamentos, é necessário exercitar novas interações com o mundo real.

Um cérebro que nunca viu um tucano ou uma rosa não sabe reconhecer o que é um tucano ou uma rosa. O cérebro de uma pessoa viciada em amar, que nunca experimentou outras maneiras de viver esse sentimento, não consegue enxergar e vivenciar outras formas que não sejam as controladoras, sufocantes e escravagistas, que tornam a outra pessoa invisível.

Para sair dessa armadilha, que não leva a lugar algum, só mesmo com ajuda profissional e muita vontade de mudar. É também por isso que estamos aqui, para fazer a nossa parte e apoiar codependentes afetivos nas suas descobertas e reconstruções.

Como dizia o poeta Otto Lara Resende , em seu poema Vista Cansada, “o diabo é que de tanto ver a gente banaliza o olhar”. Vê não vendo. É assim que são relações de codependência afetiva. As pessoas tornam-se invisíveis, um diante do outro.

Atenção! O Ministério da dependência adverte: se for amar de novo, procure escapar da repetição.