Felizmente ou infelizmente, nossos paradigmas e nossas crenças são os filtros de percepções que modelam atitudes e comportamentos da nossa vida diária.

As experiências vividas em nossas famílias de origem podem ser felizes e prazerosas, porém, algumas vezes, determinados eventos imprevisíveis desencadeiam dores, desconfortos físicos e psíquicos que deixam sequelas e feridas que muitos preferem “não mexer”, como se isso fosse possível.

Este artigo pretende expor o risco que algumas pessoas correm ao paralisarem ou congelarem as dores sofridas no passado, por determinados estressores familiares ou conjugais, tais como separações conjugais conflituosas, morte súbita de um ente querido, diagnóstico terminal ou paciente dependente químico na família, dentre outros.

Queremos derrubar a crença de que “em dor velha não se mexe, pois se corre o risco de doer mais”. Para isso, elegemos três tipos de perfis de pessoas com o objetivo de desfazer esse paradigma. O primeiro diz respeito a indivíduos que desenvolveram o sentimento de “desesperança aprendida”.

O segundo é de pessoas que internalizaram o “desprazer como um mecanismo de defesa” e são capazes de encontrar prazer no desprazer.

Por fim, os “doutores da teoria do tudo”, que constroem teorias para resolver as mais diversas questões sem fazer uso dessas teses na prática cotidiana.

Desesperança aprendida

Esse grupo de pessoas acredita que, após longos anos de promessas e expectativas, algo mágico resolverá suas questões pendentes do passado.

De modo geral, esses indivíduos vivem muito mais no mundo dos desejos e fantasias do que da realidade, aguardando que obstáculos sejam superados independentemente de suas ações. No entanto, eles não mudam suas atitudes, comportamentos e percepções sobre os fenômenos do passado que tanto causaram e causam dor.

Com o passar do tempo, essas situações doloridas, por permanecerem inalteradas, tendem a se cristalizarem, desencadeando sintomas de desesperança, um terreno propício para o desenvolvimento de distúrbios emocionais, doenças autoimunes e psicossomáticas.

Desprazer como um mecanismo de defesa

As pessoas deste grupo, ao sentirem uma grande dor, geralmente causada por perdas significativas de um ente querido, separações conjugais conflituosas, morte súbita de pessoa próxima, dentre outras situações previsíveis ou imprevisíveis, geradores de traumas mentais ou físicos, tendem a desenvolver o sentimento de prazer no desprazer.

Esse mecanismo é uma forma de sobrevivência, de se adaptaram a viver no desprazer, para evitar a velha “dor conhecida” que pode ser reeditada a qualquer momento.

De modo geral, essas pessoas se utilizam de argumentos, explicações para não expressar suas emoções e com isso fazem uso de uma “racionalização patológica” que justifique todos os medos, as inseguranças, fragilidades e vulnerabilidades frente ao fantasma do passado.

Com o “desprazer”, busca-se a tentativa de racionalizar os sofrimentos emocionais e controlar os insucessos, as possíveis frustações advindas do que, de fato, é prazer e lazer. Esse comportamento tem como base a crença de que mais vale um desprazer conhecido do que um prazer novo, incerto e perigoso..

Doutores da teoria do tudo

As pessoas desse grupo constroem teses sobre quaisquer dores mentais ou físicas, criando formas teóricas de resolver problemas de ordem prática, simplesmente baseando-se na opinião pessoal, tudo para não enfrentar a parte prática da vida cotidiana.

O processo de teorizar tudo possivelmente está a serviço do medo do fracasso e insucesso, distanciando a teoria da prática, temendo, no exercício da prática, reeditar dores antigas não resolvidas.

De modo geral, esses indivíduos pensam e agem como se a vida tivesse um receituário. Na maioria das vezes, utilizam teorias e temas para tentar, desesperadamente, controlar as variáveis que compõem a vida prática.

É por isso que, muitas vezes, essas pessoas desenvolvem pseudos-self, ou seja, falsos “eus” baseados em argumentações racionais que sustentem sua defesa sobre questões não superadas, empobrecendo suas percepções e os aspectos emocionais envolvidos.

Essa forma de evitar o contato com a vida prática, por vezes acaba favorecendo o desenvolvimento de quadros de distúrbios emocionais: grau elevado de ansiedade, angústias crônicas, fobias, síndrome do pânico, doenças de dermatológicas e alérgicas.

Para finalizar nossa reflexão, compartilho o trecho de uma música do cantor e compositor Chico Buarque, chamada “Bom conselho”: “Ouça um bom conselho/Que lhe dou de graça/Inútil dormir que a dor não passa”.

Parafraseando a canção, reforço que é inútil tentar racionalizar, teorizar e desesperar, porque a dor não passa. Em dores conhecidas do passado ou você mexe com ela ou ela mexe com você. A escolha é sua.