Certa vez, eu e minha esposa fomos convidados a intermediar uma conversa sobre uma peça de teatro.

O enredo, resumidamente, mostrava a viagem de um grupo de teatro que sofria um acidente aéreo fatal, em que todos os integrantes da trupe morriam. Os atores do grupo se questionavam se estavam mortos ou vivos, como se presos em um espaço intermediário, uma espécie de “coma profundo” em um corpo que não respondia mais, mas a mente permanecia em “transe”.

Ao final da apresentação da peça, fomos chamados ao palco para, com os atores, realizar essa conversa com o público. O silêncio era geral. A morte sempre será um tema pesado, que nos cala. Sabendo disso, tomei a iniciativa e perguntei: “Aqui, quem está vivo e quem está morto?”. Uma pessoa levantou a mão e respondeu: “Estou viva”.

Continuei: “Por que você acha que está viva?” Ela disse: “Porque meu marido me ama.” Uma resposta que fez muita gente se mexer na cadeira. Todos, ou a maioria, sabiam que estar vivo, em termos biológicos, significava sentir o coração batendo, a mente funcionando, a respiração seguindo normal… Ou seja, naquela plateia, bioquimicamente, todos estavam vivos.

O que surpreendeu foi essa pessoa dizer que estar viva se relacionava a ser amada por seu parceiro.

Vamos pensar juntos, usando essa experiência como inspiração para falar de um tema que tem, cada vez mais, ocupado as manchetes dos jornais: o suicida é um ser que perde a esperança de ser amado, aceito, acolhido por aqueles que prometeram cuidar dele. O suicídio, para quem está de bem consigo mesmo e com a vida, parece algo inexplicável. “Como assim o fulano se matou! Ele tinha filhos, netos, ele tinha um emprego, ele tinha saúde, ele sempre teve tudo…” Perguntas inesgotáveis que provavelmente o suicida se fez, mas cujas respostas não foram suficientemente claras a ponto de consolá-lo e confortá-lo, amenizando dores de sua alma. O suicida não se sente vivo, não encontra naqueles em que depositou esperança o remédio para curar a dor interna e devolver-lhe a força e a vontade de viver. Ele não consegue encontrar em ninguém ao seu lado o amor.

Vale ressaltar que, em muitos casos, existe a predisposição biológica. Há pessoas que sofrem sérias consequências por conta de questões não resolvidas anteriormente, segredos, vulnerabilidades emocionais e, até mesmo, fragilidades no enfrentamento de certas questões de sua existência. Negam, inconscientemente, o “abraço da vida” aos seus filhos, por exemplo.

Muitas famílias tendem a se desestruturar e a “congelar” quando enfrentam o suicídio de um de seus membros. É aí que mora o perigo, porque se calam e não falam das dores que estão machucando suas almas, se isolam, se fecham, ou ainda, fingem que nada aconteceu, “seguindo em frente”.

O suicídio deixa marcas indeléveis na psique de todos os familiares e nas gerações posteriores. Alguns parentes de suicidas adoecem depois do traumático acontecimento. Outros desenvolvem quadros de tristeza que, se não tratados, acabam se transformando em melancolia profunda ou depressão.

Famílias congeladas por questões não resolvidas, como segredos de abusos emocionais e sexuais sofridos, violências domésticas, mentiras, falta de amor, acolhimento e afeto, no presente e passado, muitas vezes são incubadoras que congelam os seus em uma espécie de “coma”, sem ter um sentido na vida, sendo o suicídio uma forma de alívio.

Quem está vivo na sua família? Que tal fazer essa análise de forma sincera e cuidadosa?

Então, atribua a cada item abaixo uma nota de 1 a 3, sendo 1 = nunca; 2=um pouco; 3=sempre

Com relação à vida das pessoas que vivem com você (parceiro/a, filhos, irmã/ãos etc.), como é a sua relação com cada uma delas?

a. Sei o que se passa na vida de cada um, dos problemas às boas conquistas
b. Tenho facilidade de mostrar meu afeto e carinho a cada um deles
c. Tenho um vínculo forte, de confiança, com cada um deles
d. Sei acolher quando estão tristes, enfrentando alguma dificuldade
e. Não desprezo quando buscam minha ajuda, mesmo para coisas que, para mim, são banais
f. Sei escutar e não sou do tipo que dito regras. Ajudo-os a pensar
g. Não uso qualquer tipo de meios mais agressivos para me impor quando tenho de fazer valer o que penso (gritos, castigos e afins)
h. Na nossa família, temos problemas como qualquer outra, que discutimos e procuramos entender sem fazer segredos ou ocultar verdades

Sejam lá quais forem as suas respostas, sempre é tempo de melhorar as relações e zelar pelo seu bem-estar e o das pessoas que você ama. Caso precise de ajuda, conte comigo!

Fraterno abraço,

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e famílias

Algumas famílias impulsionam. Outras “congelam” a vida

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