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Cada um de nós, em nosso inferno particular, possui particularidades e singularidades distintas. No entanto, ao entrar em contato com as relações afetivas que geram dependência, tenho observado que tal fenômeno faz emergir, no codependente, angústias catastróficas e ansiedades dilacerantes.

Podemos dizer que tais sensações se assemelham à forma como muitos denominam o inferno: “chamas ardentes, acrescidas do cheiro de enxofre”. Chamas essas que, possivelmente, foram construídas e vivenciadas pela pessoa durante toda sua vida. Quem é codependente afetivo tem um desejo incontrolável de ser amado e aceito pelo “outro”. Quando isso não acontece, por exemplo, as chamas o consomem.

Nessa circunstância vale pensar: diabo para quê? Ele não é necessário! Quando a alma dói, nosso inferno particular é habitado por inúmeros diabinhos que criamos. Mas por que isso acontece?

Porque, muitos de nós, projetamos no “outro” os 100% de lixos emocionais que carregamos e que não conseguimos elaborar. O coerente, talvez, seria assumir os 50% dos nossos lixos emocionais, ainda não reciclados, e deixar os outros 50% para que o “outro” dê conta. Afinal, no acerto de contas, ninguém constrói o inferno sozinho.

Minha experiência tem mostrado que a dependência afetiva apresenta-se como um dos mais complexos distúrbios emocionais a serem tratados. A boa notícia é que, felizmente, com apoio da terapia, muitos conseguem vencê-los e outros amenizá-los.

O “vício de amar” traz no seu cerne as memórias seletivas dos momentos afetivos aparentemente “bons”, descartando, por outro lado, os momentos de crise.  As lembranças do cheiro da pessoa amada, a “química de pele”, a música especial, as viagens inesquecíveis, o entretenimento a dois… Tudo parece dar sentido ao amor dedicado ao “outro”. Ao mesmo tempo, essas recordações minimizam as crises, angústias, ansiedades, agressões verbais e, por vezes, físicas que estão cotidianamente presentes na relação.

Nem sempre o problema para por aí. Para encarar esse amor sem medidas, algumas pessoas utilizam o álcool e outras lançam mão de drogas (maconha, cocaína, ecstasy, heroína). Quando chega a este ponto, tratamentos terapêuticos envolvendo psicoterapias, o uso de remédios e, quando necessárias, internações são opções que podem reestruturar e restaurar o equilíbrio psíquico do indivíduo.

Por isso, é necessário oferecer à pessoa novas representações mentais que possam mudar sua forma de ver o mundo, ao mesmo tempo em que propiciem significados alternativos para suas percepções.

Não é incomum dependente químico, ao livrar-se da compulsão à droga, substituir seu desejo por uma religião, uma atividade, um alimento, um projeto de vida. Esse deslocamento de foco se chama vínculo compensatório. Aliás, é disso que vamos falar na segunda parte deste artigo. Não perca!

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e famílias

Codependência afetiva: Arte de voltar duas vezes ao mesmo inferno – parte 1