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O trabalho com casais e famílias requer mais que embasamentos teóricos e práticos. É necessário que o profissional saiba lidar com os próprios relacionamentos interpessoais, conjugais e familiares para poder trabalhar terapeuticamente e envolver-se, sem prejuízo ao atendimento e a si mesmo.

As experiências traumáticas e histórias doloridas relatadas pelos casais e famílias penetram nas psiques (almas) desses cuidadores, ao ponto de, em alguns casos, levarem os profissionais ao adoecimento. A pergunta, então, é: quem cuida do cuidador?

Ainda existe uma forte crença de que o profissional terapeuta não deve se envolver com os problemas dos pacientes. No entanto, na prática, isto é impossível. Imagine um profissional da família recebendo uma mãe aos prantos, desesperada, porque seu filho de 12 anos é um “aviãozinho”, ou seja, trabalha para um traficante, entregando drogas. Se esse terapeuta não se sensibilizar com a dor dessa mãe, é hora de procurar outra profissão.  O mito da neutralidade caiu por terra, há muitos anos.

A neurociência está aí para mostrar que captamos os estímulos com as retinas dos nossos olhos e traduzimos o que vemos por meio de nossas experiências e expressões. Necessariamente, o profissional não precisa ter vivido uma situação semelhante à do paciente. Ele só precisa compreender que a “dor da alma” é um sentimento universal.

A riqueza, a beleza e a eficácia do trabalho terapêutico com casais e famílias acontecem quando os relatos penetram no psiquismo do profissional. Ele não pode fazer nada, a não ser absorvê-los, elaborá-los e devolvê-los de uma forma profissional, que ajude seus pacientes a minimizar, aliviar ou curar as dores e os sofrimentos que atingem suas mentes e almas.

Quando Freud (1920) criou a instância da consciência, sabia que uma vez que a pessoa entra em contato com determinada informação, não tem como devolvê-la.  É assim que acontece com o profissional: não tem como se isentar do que ouviu do casal ou da família.

Segundo Bowen (1976), 70% de um bom terapeuta de casal e família estão na pessoa do profissional, ou seja, com ele lida com as suas relações interpessoais, conjugais e familiares. Os outros 30% são os fundamentos teóricos e práticos que adquire nos cursos de atualizações, aperfeiçoamento e especialização. Um bom profissional de casais e de família tem sempre que estar com “um olho no gato e outro na sardinha”, o que significa cuidar dos seus pacientes, e, ao mesmo tempo, cuidar da própria saúde mental e emocional.

Pessoalmente, como terapeuta de casais e de famílias, eu procuro me cuidar, aprendendo com meus pacientes como lidar com as minhas relações interpessoais, conjugais e familiares. No entanto, muitas vezes preciso me submeter a supervisões clínicas e tratamento psicológico para não adoecer. Dessa forma, posso relaxar, cuidando do “gato” enquanto saboreio a “sardinha”.

Pense nisso nas suas relações, seja de trabalho como as sociais e familiares.  Quando você cuida do seu próximo com carinho, afeto e acolhimento significa que as fontes primárias desses sentimentos nobres estão em você. Por isso, cuide-se cuidando para não secá-las.

Boa sorte e bom trabalho!

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e famílias

Cuide-se, cuidando do outro