“Certa vez, uma rã estava à beira de um riacho estreito, porém, com fortes correntezas. De repente ela ouviu alguém chamando, na outra margem. Era o escorpião. Ele precisava atravessar o riacho, por isso pediu carona, já que não sabia nadar e tinha medo de se afogar. A rãzinha estranhou e falou ao escorpião temer ajudá-lo, com medo de ser mortalmente picada. O escorpião a tranquilizou, dizendo que não faria isso. Disposta ajudar, ela atendeu ao pedido. Após nadar até a outra margem, colocou o escorpião em suas costas e iniciou a travessia. No meio do trajeto, sentiu uma picada. Olhou para o escorpião e perguntou por que ele fez aquilo, descumprindo sua promessa. ‘Além disso’, ela disse, “nós dois vamos morrer”. O escorpião não se intimidou e respondeu: ‘É de minha natureza matar!’.”

Essa pequena história serve para ilustrar o que está acontecendo com algumas mulheres que, em nome do amor e da esperança, constroem seus relacionamentos com homens/escorpiões, tentando vencer os diversos conflitos, obstáculos e circunstâncias que a vida a dois ou em família impõe.

Talvez alguns “pontos cegos emocionais”, não resolvidos nas histórias familiares dessas mulheres, as impedem de distinguir um homem que verdadeiramente as ame e as respeite daquele que só quer impor sua força e seu machismo violento. Mulheres estas que sofreram abusos emocionais/sexuais, que têm baixa autoestima, sentimento de inadequação na família (síndrome do patinho feio), ou que sempre são vistas como devedoras emocionais dos pais ou cuidadores.

O desejo de matar, espancar, violentar, estuprar e praticar crimes hediondos por machismo, vingança e retaliações, constitui tragédias anunciadas e denunciadas, porém, o agressor ou assassino sabe que, em alguma instância, a impunidade está garantida por uma cultura doentia dos julgadores sociais (todos nós), jurídico e políticos.

Um exemplo é o deputado federal que esbravejou, em plenário, que não estupraria uma colega da câmara, pois ela não merecia. O processo aberto contra ele está em andamento e o referido deputado é candidato ao cargo de presidente da república…

O feminicídio é fenômeno complexo, que envolve todo o tipo de condições socioeconômicas e políticas. Porém, mulheres de classes menos favorecidas são mais vulneráveis, sofrendo essa situação de violência com mais frequência por parte de seus parceiros descontrolados e doentes, seja porque têm pouca cultura e informações como, também, pela falta de estrutura emocional e econômica para “peitar” e denunciar os agressores escorpiões.

O que temos de ter em mente é que homens/escorpiões estão soltos por aí, infestando a nossa sociedade. Também precisamos analisar algumas características femininas que reforçam, ingenuamente ou inconscientemente, essa selvageria. Algumas delas são:

> acreditar que o amor transforma alguém que não quer se transformado
> acreditar na promessa de quem já agrediu outra ou outras mulheres de que não vai fazer isso com sua parceira atual
> aceitar a agressão como condição inerente aos relacionamentos, uma vez que mãe, avô ou amigas passaram por isso e o casamento sobreviveu

Acrescido a tudo isso, falta mais rigor à lei, mais delegacias das mulheres para acolher as denúncias e protege-las de agressões de retaliação.

No nosso microuniverso, ou seja, em nossas famílias, clubes, associações, escolas, empresas, podemos impedir que essa realidade aumente, chegando aos nossos lares – se é que ainda não chegou. Munir homens e mulheres de mais informações e conhecimentos relacionados às condutas dos agressores, com maior realismo. Preparar de forma adequada pessoas de todos os gêneros para estabelecer relações sadias em que amor e esperança de um não sejam usados para estancar o veneno de homens/escorpiões, porque estes não param, não mudam, mesmo sendo amados.

O Brasil é o 5º, no mundo, em que mais mulheres morrem por conta

da violência doméstica.

Vergonha!

Muita vergonha de entregar essa nação aos nossos filhos e netos!

Não podemos mais aceitar, passivamente, o ditado “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Temos de denunciar quando presenciamos atos violentos contra mulheres – e homens.

É nosso papel de cidadãos e de seres humanos que acreditam em um mundo melhor, com respeito às diversidades.

Denuncie! Disque 180 e salve a vida de uma mulher e de sua família.

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e famílias

Feminicídio: quando mulheres e esperança morrem juntas
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