Quando o brilho de uma luz é excessivo, ofusca a visão. A meia-luz, por sua vez, elimina esse excesso de brilho, sem eliminar a claridade. 
(Heidegger)

Você deve estar pensando qual é a minha resposta para a pergunta do título. Pois te digo, sem medo de errar: somos todos machistas. E isto acontece por omissão, falta de conhecimento, comodismo, crenças limitantes, processos culturais ou por achar que o pior sempre acontece com o vizinho. Tanto é assim que acabamos por desenvolver um fenômeno conhecido como “audição negada”, que transforma o que é audível em inaudível, ou seja, de tanto escutar, eu não escuto. É como a conhecida “vista viciada”: vemos tanto a mesma coisa que, em determinado momento, essa coisa se torna invisível aos olhos.

Indo mais fundo no escopo do machismo, o assédio sexual é como uma erva daninha que nasce em um canteiro de rosas. Todos olham as flores lindas e coloridas, sem perceber a contaminação e o mal que as ervas daninhas causam. Essa analogia espelha o ranço cultural do machismo perverso e doentio, justificado por pessoas detentoras de distúrbios mentais/emocionais desenvolvidos em um tecido social repleto de preconceitos e discriminação contra as mulheres.

Nas famílias, nos casamentos, entre amigos, nas relações de trabalho, as “ervas daninhas” nascem por que alguém as plantou. Mas quem planta as sementes dessas ervas, que transformam meninos sadios em homens machistas? Tudo começa com comentários e posturas maldosos e preconceituosos, olhares atravessados que criam estereótipos sobre o que são as coisas de meninos e as de meninas, comportamentos discriminatórios (meninas não jogam bola, meninos não brincam de boneca). Daí vai para as empresas, que discriminam as profissionais mulheres, tidas como menos capazes. Por isso, muitas corporações ainda remuneram seus funcionários de forma diferente, por gênero, pagando menos às mulheres em cargos iguais aos dos homens.

Dificilmente elas ocupam posições centrais, de CEOs, nas grandes empresas. Idem para profissões mais ligadas às áreas de exatas.

A semente começa em casa, com pais e cuidadores. Muitas vezes é reforçada na escola e depois nas frentes de trabalho.

Voltando ao tema do assédio, em pleno século 21 ainda existem homens – e mulheres – que acreditam em crenças medievais, como a de que os homens são caçadores e têm instinto sexual forte, por isso “precisam” de sexo (mesmo que a qualquer custo). Por outro lado, esses mesmos ignorantes veem as mulheres como frágeis e dóceis e que, por isso, elas se deixam assediar e, até, provocam, justificando abusos cometidos.

Essas justificativas nada mais são que pensamentos doentios de uma sociedade repleta de ambivalência e comunicação perversa. Uma sociedade que se pauta em um “modus operandi” baseado em um código moral absurdo de que ser diferente no gênero prescreve tratamento desigual. Isso é machismo. Isso é violência.

Mas quando essa forma de ser e ver a mulher vai mudar? Somente quando na educação infantil, os pequeninos, que ainda não sabem falar direito, se indignarem, batendo seus pezinhos no chão, em ritmo acelerado, interrompendo a aula para que o (a) professor (a) perceba que um(a) coleguinha mostrou a língua para outro (a) como um gesto de discriminação. Que essa reclamação passe a ser pauta da aula e que, em seguida, o conteúdo seja a discussão sobre respeito às diferenças e diversidades, também levado às reuniões com os pais.

A beleza e o brilho das rosas não podem mudar a percepção que temos do nosso próximo. O que muda isso é o respeito ao outro, tendo-o como uma extensão de nossa vida. Caso contrário, ervas daninhas (machismo, assédio sexual, discriminação profissional) encontrarão um campo fértil para germinar, inclusive nas nossas famílias.

Não existem herbicidas contra ranços culturais, a não ser que coloquemos o amor ao próximo acima do machismo injustificado, de uma sociedade desigual.

Eu que te escrevo não sou uma rosa, nem um cravo. Sou um ser humano, como você, que deseja ser amado e respeitado pelas coisas boas que tenho a oferecer, independentemente do gênero que tenho. Por isso, devo agir da mesma forma, respeitando as pessoas pelo que elas são, como protagonistas de mudanças, sejam elas homens ou mulheres. Porque isso é o que menos importa!

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e famílias

Homens machistas nascem assim ou se tornam no decorrer da vida?
WhatsApp Chat
Enviar pelo WhatsApp