Ao longo da nossa convivência, não me lembro de ter existido um só dia em que minha mãe não agitou e inquietou a minha vida emocional.

Nos namoros e casamento, lá estava ela com a sua sedução, falando nas entrelinhas que eu poderia fazer o que quisesse da minha vida, contanto que eu tivesse cuidado para não abandonar as pessoas que eu gostava.

Nas minhas tomadas de decisões, sua voz ecoava nos meus ouvidos: “Tem certeza de que é isso mesmo que você deseja?”. E ainda: “Não que eu queira controlar a sua vida, mas pense bem!

Na maioria das vezes em que eu ia fazer uma escolha, uma voz lenta e suave dizia aos meus sentidos: “Lembre-se de que mais vale um passarinho na mão do que dois voando”. E se perguntada o que ela queria dizer com isso, ela respondia: “Você sabe como eu penso”, o típico argumento de quem fala sem dizer nada, mas passa uma mensagem subliminar. Pronto: minha mente já estava contaminada.

Quando ela se via sem saída sobre alguma questão que a colocava “na parede”, dizia: “Nossa! Estou com uma dor de cabeça…”.

Mesmo com aquele jeito um pouco dominador, minha mãe é nota 10. Foi ela que me ensinou a amar, a respeitar o próximo, me acolheu nos primeiros momentos da minha vida, quando o meu “desamparo inicial” como bebê era uma forte sensação de morte.

Por isso, sou grato às agitações e inquietações que até hoje, indiretamente, ela provoca, nas minhas relações pessoais, interpessoais, conjugais, familiares e profissionais.

Minha mãe me mostrou que é melhor ficar agitado e inquieto diante da vida do que ser abraçado pela inércia da morte, que promete uma existência calma e mansa, incolor e inodora, sem amor, acolhimento, aceitação.

Ela sempre me dizia para eu ser um ativista do bem: “Leve carinho, amor, acolhimento, solidariedade. Viva e se entregue às relações com o próximo, porque, no final, são essas histórias que realmente contam”. Em suma, é seguir o velho e bom ditado: “Faça aos outros o que gostaria que fizessem com você”.

Concordo com ela. Vida sem agitação e inquietação é para quem já nasceu “morto”.

Aprendi muito com as agitações e inquietações da minha mãe, presentes nas situações amorosas, pessoais, profissionais e familiares. Não aceito o comodismo, a mediocridade, a hipocrisia, a injustiça, a intolerância e a falta de amor e carinho. Essa minha porção tem muito de minha mãe, uma flor de amor e carinho, por mim e pelos meus irmãos, mas que sempre espetou a minha vida emocional com seus espinhos amorosos, ajudando-me a me tornar a pessoa que hoje sou.

Neste tempo de celebrar o Dia das Mães, sugiro a você que curta essa pessoa, seja ela quem for, ativista ou passiva. Observe-a, compreenda-a e a ame. Quando você ainda era um feto no ventre quente e calmo de sua mãe, você foi o ativista emocional da vida dela, que a motivou a ser mais do que ela jamais se imaginou capaz. Por isso, hoje você está podendo ler este texto.

Se precisar, também a perdoe. Atos que podem ter te magoado lá atrás, ou que ainda te magoam, são frutos do que ela podia e sabia fazer. Acredite: ela se deu ao máximo por você. Por isso, seja feliz e curta sua mãe, mesmo se ela não estiver mais neste planeta. Ela merece se sentir aceita e amada, porque as agitações e as inquietações emocionais que temos, muitas vezes plantadas pelas nossas mães, nos fazem crescer, nos desenvolver e ajuda-nos a evoluir como seres humanos para amarmos uns aos outros.

Por isso, ame! Um feliz e abençoado Dia da Mães!

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e famílias

Minha mãe sempre me inquietou porque é uma ativista emocional
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