Apesar da era das redes sociais, ficar só não é uma arte impossível. A fantasia, a ingenuidade e a ilusão de que a vida on-line supre a solidão nada mais é do que um autoengano.

Pertencer é diferente de interagir. Relacionamentos interpessoais, namoros, casamentos, famílias e vida profissional não podem e não devem excluir a individualidade das pessoas. Transitar entre “eu” e “nós” é um exercício constante de quem deseja ter prazer, vivendo suas relações, sem se desconectar de si.

Enganar-se na entrega das relações, por medo, por vivências tristes, traumas e fantasmas vividos, é forjar um personagem para sobreviver às dores e aos sofrimentos ainda não cicatrizados. Uma pessoa, por exemplo, que viveu infância e adolescência sendo agredida pela mãe, pai ou cuidador, verbal e fisicamente, pode criar um personagem lúdico, leve, brincalhão, procurando passar a imagem que é “zen”. Ou seja, fez uma mágica para se esconder dessas dores que viveu e para não ficar só, criando uma legião de amigos na vida real e virtual. No entanto, está reclamando sobre nunca se sentir amado e aceito de verdade. Nesse momento, a máscara cai, vindo à tona os fantasmas, medos e inseguranças.

Mas como se desfazer dessa sombra? Sejamos sinceros: fácil não é, mas é possível, sim, e vale a pena! Quando pararmos de correr de nós mesmos e encontramos prazer nos propósitos e objetivos que elegemos para viver autenticamente, damos um passo na luta contra os fantasmas do passado, porque deixamos de usar subterfúgios para fugir das dores e dos sofrimentos que nos afligem.

Nesse momento, conseguimos nos entregar autenticamente às relações afetivas e profissionais, que nos ajudam a construir uma imunidade emocional.

Aprender a viver consigo não é apologia à solidão. Pelo contrário, é instinto de preservação, de quem não deseja fazer de suas relações bengalas de apoio para não se enxergar. Enganar-se, fingindo estar feliz, sem brigas e conflitos com parceiros e pares, é como viver em Marte tentando fazer valer os recursos, hábitos e aprendizagens adquiridos na Terra.

Faça este teste:

Pense sinceramente se você consegue conquistar pessoas (nas relações afetivas, sociais e profissionais), seus objetivos e realizar seus projetos, tudo ao mesmo tempo. Agora pense se você conseguiu manter essas relações, os objetivos e os projetos, fazendo uma lista do que aprendeu em cada situação. Identifique se você adquiriu, por meio desse conjunto de relações e projetos pessoais, a “imunidade emocional”, ou seja, se suas dores e sofrimentos do passado já não lhe assustam mais.

Caso você consiga ficar bem com você e com os demais que elegeu para sua convivência, parabéns. Você não é um sabotador da própria vida. Porque muito melhor que “antes só do que mal acompanhado” é “só e junto é bom à beça!”

Boa sorte!

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e famílias

Relações virtuais e reais: até que ponto elas te prendem ou te libertam?
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