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Na primeira parte deste artigo, que você acessa clicando aqui , falamos dos codependentes emocionais que, por terem a compulsão de serem sempre aceitos pelo outro, fazem qualquer coisa para agradar parceiros, amigos, familiares, colegas de trabalho, chefes… Essa questão é tão séria que, sem o apoio de uma terapia, vencer esse vício é muito mais penoso e, em muitos casos, impossível, colocando à prova o bem-estar físico e psíquico do indivíduo.

Na tentativa de livrarem-se da compulsão às drogas, muitos dependentes químicos, por exemplo, substituem o seu objeto de desejo pela religião, profissão, pelos estudos, ou ainda, por um projeto de vida, pelo culto ao corpo, mas de forma exagerada. Esse deslocamento é conhecido por “vínculo compensatório”. Também pode se dar o desenvolvimento da síndrome da eterna juventude e, às vezes, a pessoa deixa emergir um narcisismo patológico (doentio) e até mesmo a síndrome do perfeccionismo.

No caso da codependência afetiva, o “vínculo compensatório” também pode ocorrer, mas de forma diferente. Não se dá o deslocamento do foco (a pessoa amada) para uma ação ou objeto.

Geralmente, o codependente, em processo de recuperação, vincula-se a uma nova pessoa, mas isso significa construir a relação afetiva, tendo a possibilidade de fazer as coisas de forma diferente, percebendo se a vivência anterior negativa lhe serviu de aprendizado, cicatrizando as feridas. No entanto, em alguns casos, o indivíduo acaba repetindo os mesmos processos e posturas que o prejudicaram, criando outra codependência, o que significa que sua maturidade emocional ainda não aconteceu.

Essa segunda situação é muito comum em pessoas que não se apoiam em profissionais da psicologia. Isto porque descobrir o cerne do problema, o que as levam a repetir história, é uma tarefa muito difícil para quem está no próprio inferno.

Sartre dizia que “o homem é condenado a ser livre”. Eu acrescentaria “o ser humano é um ser condenado a viver relações”. Cabe a ele aprender a ser livre de seu inferno particular para poder vivê-las sabiamente, de maneira a agregar aprendizagens sobre si e o outro.

Então, como “ser livre” quando a pessoa depende de ser amada e aceita pelo outro? Para ficar imune à codependência afetiva é preciso viver as relações nas diferentes complexidades. Encontrar esse equilíbrio é o que dá sentido à vida.

Vamos a um exemplo da mitologia grega:

Sísifo era o ser aprisionado pelo diabo e acorrentado nas entranhas do inferno. Um dia ele conseguiu escapar. Porém o pavor psíquico que essa vivência gerou é tão grande que ele planeja uma estratégia para enganar o diabo: passar o resto da vida empurrando uma pedra, de aproximadamente 100 quilos, até o cume da montanha. Quando chegar nela, deixar a pedra rolar, começando a empurrá-la novamente e ininterruptamente.

Quando questionado sobre o porquê daquilo, Sísifo explicou: “quando o diabo me olhar, vai imaginar que esta já é a minha punição, então vai me deixar em paz.

Ou seja, ele se deu uma sentença que muitos de nós nos damos. Fugimos do diabo, mas não nos libertamos de nosso inferno particular, continuando presos ao pavor que sentimos e não trabalhamos para eliminar. Em suma, nas relações de codependência, não encarar o diabo é o mesmo que negar que ele está no seu psiquismo, que ele manda no seu inferno.

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e famílias

Codependência afetiva: Arte de voltar duas vezes ao mesmo inferno – parte 2