Nossas experiências na infância, adolescência e vida adulta, com pais, irmãos, avós, tios, primos, são verdadeiras fontes de aprendizagens que nos nortearão para o resto da vida.

Muito comum ouvir alguém perguntar o que se aprende em ambientes familiares em que havia tantas dores e sofrimentos. A resposta é: várias coisas! Por exemplo, resiliência, mecanismos de sobrevivência e preservação, formas de lidar com sentimentos de injustiça, com mágoas, rejeição, frustração, desamparo e desproteção, obstáculos presentes em outras circunstâncias, como trabalho e relações sociais.

Por isso, como não podemos negar nossas histórias e experiências vividas, só nos restam duas opções:

Tê-la como ponto de referência para a construção de novos projetos vida, o que pressupõe ressignificar e reconstruir dores e sofrimentos experimentados no passado, no seio familiar. Depois, é preciso transformá-los em competências e imunidades emocionais, características essenciais para ampliar a uma chance de encontrar alguns fragmentos do que imaginamos ser nosso verdadeiro “eu”, até então misturados com os “eu” de nossos entes queridos.

Negar nossas histórias e experiências passadas que nos constituíram. Em outras palavras, é caminhar sem parâmetros e seguir a vida sem sentimento de pertencimento. Semelhante a uma árvore com raiz não muito profunda, sujeita a queda no primeiro vendaval. Nos consultórios clínicos, muitas vezes, pessoas reclamam que não gostam do pai ou da mãe, dos avôs, tios ou quem deveria ser seus cuidadores por diferentes motivos. Geralmente são adultos que, quando crianças ou adolescentes, se sentiam abandonados, desprotegidos, rejeitados, agredidos verbal ou fisicamente e, em certos casos, abusados física e emocionalmente. Como não ficar magoados, revoltados e não rejeitar esses contextos familiares tão hostis e agressivos? No entanto, é essencial não fugir desses sentimentos. Quando fugimos, perdemos a chance de nos conhecer melhor. Passamos a viver como fugitivos de nós mesmos, dissociando uma parte de nossa história, o que gera um “vazio” inexplicável.

EXEMPLO

Uma criança nasce em um lar onde os pais acreditam que evitar conflitos é a melhor maneira de se viver, criando um paraíso sem atrito, colocando-os embaixo do tapete. Essa criança pode adotar a postura de politicamente correta, boazinha, não saber como encarar os desafios e obstáculos. Outra criança, que nasce em um lar com muitas brigas, alcoolismo, agressões físicas e verbais, pode criar um mecanismo de sobrevivência de “insensibilidade emocional”, por meio da racionalidade, para não entrar em contato com as dores e sofrimentos do passado.

Os exemplos mostram que, quando fugimos de nossas famílias de origem, fazemos uma alquimia mental ou “magia”, transformando dores do passado em fantasmas com os quais somos obrigados a conviver no presente, fugindo, também, da própria história. Essa postura leva a um sentimento de desconexão de nós mesmos.
Portanto, se você corre tanto e não sabe o porquê, procure identificar se os fantasmas que criou na sua mente, a partir da fuga das histórias familiares, já não passaram do limite e é hora de exorcizá-los.

Fantasmas não morrem, atravessam gerações e destroem famílias, casamentos e demais relações. O melhor remédio para fantasmas é a realidade. Caso tenha dificuldades não resolvidas com seus familiares, aproveite para perdoá-los e, também, se perdoar por aquilo não que conseguiu enxergar e resolver em outros momentos da sua vida.

O tempo, quando usado para reconstruir nossas histórias, é um grande aliado. Quando usado para fugir de realidades da vida, é um grande alimento para os fantasmas amedrontadores de famílias e casamentos.

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e famílias

Família: aceitar ou… Correr pra longe