Certa vez perguntaram para o médico psiquiatra, doutor Claude Olivenstein, estudioso e pesquisador sobre o fenômeno da dependência química, como uma pessoa se tornava dependente.

Ele usou uma metáfora para elucidar a questão:

Vocês conhecem aquelas dunas de areia que embelezam as praias do nordeste brasileiro? Um dia o vento soprou um grão de areia que parou em uma moita de capim. No outro dia, um vento mais forte soprou dois grãos de areia, que pararam na mesma moita, e assim sucessivamente. De ventos em ventos, e de grão em grão, formaram-se aquelas dunas maravilhosas que lá estão”.

Dunas de areia, dependentes químicos e estudantes suicidas não são muitos diferentes. Ao nascerem onde os ventos das relações familiares e conjugais sopram, muitas vezes lançam grãos, não de areia, mas de desamor, desamparo, desproteção, de desqualificação das tristezas vividas pelas crianças e pelos adolescentes. Por vezes, esses núcleos familiares agem de outra forma, tão prejudicial quanto: protegem as crianças e os adolescentes dos ventos saudáveis inerentes à condição humana, como aprender a lidar com a frustração, a interagir com próximo, a ampliar o seu potencial de tolerância, enfim, criam uma redoma de proteção tão forte que acabam por impedir que seus filhos entrem em contato com a realidade.

Você já deve ter visto pais com crianças de 2 ou 3 anos em restaurantes. Ambos com seus celulares nas mãos e a criança com um pequeno tablete, assistindo desenho animado. Com certeza, se essa prática for uma constante na família, “ventos dessa interação familiar” não trarão bons resultados no futuro.

Caso estejamos interessados em encontrar soluções para evitar os recorrentes suicídios de estudantes nas escolas, é melhor adotarmos uma postura de maior complexidade com relação a esse fenômeno tão triste.

Adolescentes não se suicidam por acaso. Ainda crianças começam a demonstrar alguns indicadores (grãos de areia), como: apatia, isolamento social e afetivo, justificado pelo excesso de intoxicações de jogos eletrônicos, smartphones e celulares, baixa autoestima, baixa tolerância à frustração, comportamentos que demonstram que a relação com outro e consigo mesmo não têm muito sentido. Quase sempre são muitos intelectualizados, as emoções vêm em segundo plano, não sentem saudades dos pais ou de amigos, demonstram indiferença a dores e perdas de familiares e amigos. Várias vezes se referem às questões emocionais não resolvidas com já superadas. Quando sentem dores da perda se isolam, pois sabem que se forem levar essas questões aos pais, na maioria das vezes, elas serão desqualificadas por eles.

Em geral, as famílias e os casamentos carregam segredos mantidos como se os filhos fossem invisíveis. Nos consultórios clínicos, uma boa parte de casais e pais mantém segredos sobre a existência de parentes depressivos, suicidas, casos de abusos sexuais, enfim, situações que levaram um dos pais a desenvolver um quadro depressivo por algum tipo de circunstância ou, até mesmo, por ter predisposição genética.

Em uma realidade nua e crua, escola e família perdem essa luta juntas, por não se unirem. A família sonega informações sobre o histórico familiar das crianças e dos adolescentes e a escola não se interessa em perguntar, já que terá mais trabalho e requer tempo para investigar melhor os comportamentos autodestrutivos e destrutivos de seus alunos.

Para fechar este artigo, cito esta metáfora: “entre o mar e o rochedo, o marisco é que leva a pior”. Assim, com relação aos suicídios dos estudantes, noticiados pela imprensa, na falta de uma percepção mais apurada e complexa do que é esse fenômeno, tanto por parte da família como da escola, é o aluno que vai a óbito.

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e famílias

Por que nossos jovens estão cometendo suicídio?
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