O recente incidente com os meninos e técnico de futebol da Tailândia, presos em uma caverna, nos leva a algumas reflexões sobre como amor, solidariedade e união de pessoas e nações podem transformar o quase impossível em possível.

Nós, seres humanos, temos a tendência de aprender por meio da dor e não pelo amor. No entanto, sempre é bom rever essa postura humana. Este evento, que acabou bem, pode ser um ponto de partida para reformularmos a nossa percepção, ou seja, será que é necessário que um grupo de crianças e um adulto tenham suas vidas expostas para que parte do mundo perceba que a força do amor coletivo salva? Que esse amor pode tirar milhares de crianças e de adultos das cavernas em nosso entorno?

Um exemplo são meninos e meninas refugiados, de diversos países, vivendo em condições precárias e de risco, pelas ruas, expostas a fome, miséria, violência da mais variada espécie. Crianças que se escondem nas cavernas dos escombros das guerras religiosas no Oriente Médio. Nem precisamos ir muito longe. No nosso país, quantas crianças não estão abandonadas em abrigos ou vivem nas ruas, pedindo esmolas, catando alimentos do lixo.

Por que precisamos de desastres pontuais para sentir solidariedade e amor quando as questões sociais estão aí, no dia a dia de milhões de pessoas em todo o Planeta?
Indo além, estamos em déficit com pessoas até de nossa convivência, por não acolhê-las e tirá-las de suas cavernas escuras, onde não há amor, compaixão. Crianças e adultos que sofrem porque nasceram em lares onde o afeto não reina.

No cotidiano de nossas vidas, transformamos essas pessoas, que vivem em cavernas emocionais, sociais e econômicas desfavoráveis, em seres invisíveis. A mídia não coloca foco nelas e nosso egoísmo nos faz cegos.

Como salvar nossos filhos dos perigos das cavernas das drogas, do suicídio, da violência física e verbal, dos abusos emocionais e sexuais? Como lutar para que o Planeta Terra não se transforme em uma enorme caverna, habitada por pessoas infelizes?

É urgente cuidar do nosso próximo para que estejamos bem conosco mesmos. Temos de mudar para que episódios pontuais, como o da Tailândia, não nos levem a concluir que somos insensíveis, mesquinhos e egocêntricos mesmo porque, um dia, podemos estar confinados em uma caverna qualquer, criada pelas questões mal resolvidas de nossas vidas.

Aliás, atualmente, em que tipo de caverna você vive com seus familiares, no seu casamento, nas suas relações interpessoais e profissionais? Ela é inundada de mágoas, rancores, raiva e ódio ou de amor, acolhimento, afeto, solidariedade, união. Sim, porque as cavernas não são boas ou ruins, são apenas cavernas. Nós é que levamos para elas a cor, a luz, o calor. Ou as deixamos ficar abandonadas, sem cuidados, com tristezas e dores sem fim.

Cabe a você construir relações em cavernas arejadas e que dão prazer de ficar. O importante é lembrar que o amor é a melhor maneira de preencher de vida qualquer caverna. Não é preciso esperar que a dor aconteça para se lembrar disso, não é mesmo?

Sebastião Souza
Psicoterapeuta de casais e famílias

O resgate tailandês e o aprendizado sobre dor e amor